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Associação dos Cavaleiros
do Senhor Bom Jesus de Pirapora 
de Santo Amaro

A aluna Luana Rissi do "Projeto Acolhendo" entrevistou o Sr. Luiz Antônio da Silva Araújo no Recanto dos Cavaleiros, vice-presidente dos Cavaleiros do Senhor Bom Jesus de Pirapora e organizador da famosa romaria.

 

O Sr. Luizão - como é carinhosamente chamado - tem 61 anos e é o caçula de uma família tradicional de 11 irmãos, e conta que por influência do pai, o saudoso Sr. Araújo, começou a participar da romaria quando tinha apenas 6 anos e diz que a meta principal é manter a tradição.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Como tudo começou na vida do senhor?

Luizão: Quando começou as romarias tinha o dia do santo Bom Jesus de Pirapora, e as famílias alugavam um caminhão para chegar em Pirapora e ficavam hospedados em casas antigas. E minha família era tradicional no bairro, e participava todos os anos. Com seis anos de idade aguardava a data com grande entusiasmo, pois sabia que ganharia presentes. Me lembro que, quando criança, me punha de joelhos diante dela, gesto que aprendi a repetir com meus pais e pedia a ele proteção para os meus temores, e suplicava felicidades às pessoas e saúde aos meus pais. E depois de algum tempo, o trajeto cOmeçou a ser feita com cavalos, fazendo com que eu tomasse mais gosto pela romaria.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Qual a história da romaria?

Luizão: Em 1920 tinha acabado a gripe espanhola, que deixou mais de 20 milhões de mortos no mundo todo. São Paulo também sofreu os efeitos da epidemia. Mas em Santo Amaro, que ainda era um município independente, houveram poucos casos fatais. Um grupo de 4 jovens comerciantes, liderados por Cenerino Branco de Araújo, resolveu então fazer uma penitência, indo a cavalo até Bom Jesus de Pirapora. Já em 1953, José de Oliveira Almida Diniz organizou outra romaria, segundo ele para uma promessa ao Bom Jesus de Pirapora, mas creio que seja por interesse político (sendo que esta ocorre no início de maio).

 

Projeto Acolhendo (Luana): E a tradicional Romaria dos Cavaleiros quando acontece?

Luizão: Já a nossa romaria acontece no último sábado do mês de maio, e este ano completaremos a 86ª romaria.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Por que rumo à Bom Jesus de Pirapora?

Luizão: no fim do século XVII a igreja de Nossa Senhora das Dores, em Bariri (interior do Estado de São Paulo) foi saqueada. Parte do saque da igreja, onde ficavam armazenadas as imagens que serviriam para futuros aldeamentos, foi jogada pelos assaltantes no rio Tietê. Um dos objetos jogados no rio, uma imagem de 1,70 metros de altura, apareceu no começo do século XVIII nos saltos de Pirapora, cujo nível tinha descido devido à estiagem.

Após retirada do rio, a imagem foi guardada em um paiol de milho, que pegou fogo. Mas nada aconteceu com a imagem. Resolveram, então, leva-la para Santana de Parnaíba, onde ficava a cúria da região. Mas ao chegar ao Descanso, um lugar que existe até hoje, o carro de bois que levava a imagem atolou. Nem com mais duas parelhas de bois conseguiram desatolar o carro. Foi nesse momento que um mudo que passava no lugar falou: "Não adianta levar a imagem pra frente que ela quer ficar aqui". Surgiu aí a fama de milagreiro do santo. Levaram a imagem de volta a Pirapora, e está guardada até hoje no museu da cidade. Todo peregrino que vai a Pirapora recebe alguma graça. E são três dias dedicados à Romaria; o 1º de viagem na estrada, o 2º para descansar os animais, conhecer a cidade, conversar, comprar lembrancinhas e fazer palestras. Então, em Pirapora, é realizada uma missa cantada e uma procissão em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Pirapora. No dia seguinte, a comitiva retorna à cidade de São Paulo.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Como assim palestras?

Luizão: Nas Romarias, encontram-se pessoas de todas as regiões da cidade, e elas aproveitam para fazer as trocas de animais, também conhecida como 'berganha'. Por exemplo, se eu tenho um touro muito bom em casa, e esta troca é necessária para que esse touro não cruze com suas irmãs. Depois do religioso, faz-se uns aperitivos e executa-se 'berganha' ao longo do dia e aproveita para contar as histórias que ocorreram durante o ano.

 

Projeto Acolhendo (Luana): O senhor também foi agraciado?

Luizão: O que a gente gasta em Pirapora nunca fez falta, quando a gente volta ganha dobrado. Sempre foi assim.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Como inicia a romaria?

Luizão: As pessoas se reúnem no Largo Bonneville (antigo Largo São Sebastião, no bairro de Santo Amaro, zona sul). Quando o grupo se completa, as bandeiras (servem para homenagear os Santos padroeiros) tomam seus lugares no alto. Depois inicia a subida da ladeira de Santo Amaro, puxando uma procissão (uma fila) e passa em frente a igreja de Santo Amaro, e lá sempre tem um padre que respinga 'água benta' para nos abençoar. Segue pela a Av. João Dias, até o Monumento aos Romeiros, de Julio Guerra, na Praça Dr. Francisco Ferreira Lópes em frente a Casa de Cultura de Santo Amaro, no antigo Mercado Municipal) cumprindo o itinerário. Em Barueri, acontece um intervalo para o descanso e faz um churrasco para a turma.

Junto a romaria, um caminhão pipa e outro caminhão levando medicamentos, um ferreiro aguardam para suprir qualquer problema com os animais.

Projeto Acolhendo (Luana): Como se consegue a autorização para efetuar a romaria e existe algum tipo de auxílio de patrocinadores ou algum órgão público?

Luizão: Dois meses antes deve-se pedir por escrito ( carta e cartaz da romaria) autorização para o DSV e para prefeitura. E o auxílio não ocorre por parte dos órgãos públicos, somente nos anos que ocorrem eleições. os candidatos utilizam as romarias como palanques para benefício próprio e adquirir votos.

Na verdade, uma semana antes da romaria, acontece a festa dos cavaleiros em minha propriedade, no recanto dos cavaleiros. A entrada é franca e famílias inteiras participam das brincadeiras (pau de sebo, porco ensebado, caça ao frango), das montarias em cavalos e burros, acontece passeata de cavaleiros pelas ruas da região, apresentação de peça de teatro, fogueiras com música sertaneja, bingo com sorteio de brindes, prova de hipismo clássico e rural, desfiles dos cavalos de romaria, concurso dos cavaleiros do futuro (para meninos) e amazonas do futuro ( para meninas), barracas com comidas típicas e sanduíches, premiações para os melhores colocados e queima de fogos. São dois dias de muita diversão.

A prefeitura nada contribui, a comissão é responsável pela a arrecadação de dinheiro entre os patrocinadores e com a festa. Os patrocinadores são as firmas de ração que doam algumas unidades para os animais que participam.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Quem são as pessoas que participam das romarias? O que fazer para participar?

Luizão: São católicos de todas as classes sociais. Desde aqueles que importam roupas do E.U.A ao 'negrinho' que utiliza uma carroça ou um migrante, cada um com seu credo e cultura. Todos são movidos pela fé. Todos recebem um emblema de identificação, que autoriza a utilização de todas regalias oferecidas. Para participar, a organização aceita eqüinos e muares (cavalos, éguas, mulas e burros) de montaria e charretes. Não admite animais desferrados, sem selas e cavaleiros que portem chicotes ou esporas. Sendo que aparecem ciclistas também.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Quais são as principais diferenças percebidas nas romarias antigas e atuais?

Luizão: Os antigos acham que os velhos tempos eram melhores, pois tinham mais liberdade e segurança. Existiam estradas de terra, hoje os asfaltos limitam o espaço. Não tinha necessidade de usar botina, agora existe a necessidade de se adaptar as situações, a modernidade. Em relação ao nível das pessoas, eu as comparo com as águas poluídas dos rios que cruzam nossos caminhos. Pois, as pessoas não são as mesmas, não existem os 'coiós', as pessoas não obedecem as regras, não se pode confiar nelas durante o trajeto. Elas não traçam os mesmos objetivos, algumas participam para adquirir o benefício próprio e outras para saquear ou atrapalhar de alguma forma. E ainda, o cavaleiro também precisa se preocupar com o cavalo, o seu meio de transporte e suprir as necessidades do animal, sem que outras pessoas precisem chamar a atenção.

 

Projeto Acolhendo (Luana): Com sua experiência adquirida ao longo dos anos, o que o Sr. espera do futuro das romarias?

Luizão: Espero que as pessoas herdem as responsabilidades, que não se perca a tradição e que a romaria não se transforme num palanque para o discurso de candidatos ambiciosos.